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Hoje entre coisas da vida, resolvi colocar em pauta as minhas listras. 

Tem coisas que são explicáveis, mas o abstrato tende a não ter uma explicação em si. Entretanto, posso falar alguns fatos que nortearam a minha opção em fazer listras.

Um dia, numa palestra do "MAC encontra os artistas" promovida pelo professor Tadeu Chiarelli, o convidado era Paulo Pasta. Entre os muitos assuntos relativos às obras, uma frase me pegou: é preciso desenhar. Eu entendi do meu jeito, e as listras começaram a me envolver. Há um motivo meu, porque sempre tive dificuldades com a composição de um desenho. As listras resolviam esse problema de composição, e aí, era trabalhar. Trabalhar para mim é um prazer. Compor, nem tanto. Ao desenhar as listras com uma polegada estava definido um tamanho. E ao determinar que seria sempre na horizontal, eu criei uma regra para a composição. E as telas compradas prontas nas imediações da Praça da República eram vendidas em medidas em centímetros. Como as listras são medidas em polegadas, uma "sobra" ocorre ao final do espaço pictórico. Assim, todos os parâmetros da composição estavam definidos. Isso abriu um leque de possibilidades para mim, pois o que mais me interessa é trabalhar. Resolvido o problema compositivo, todas as técnicas de pintura ficaram abertas para exploração.

A decisão pelas listras tem relações que eu pesquisei e cheguei a algumas conclusões. A pesquisa teórica foi ler e ver os abstratos expressionistas, arte conceitual e minimalistas. A defesa do abstrato em cada um deles me foi fazendo um quadro que eu usaria para justificar minhas opções. 

Jackson Pollock

O "gotejamento" de Pollock nas obras de artistas Artmajeur ...

"A técnica de pintura de Jackson Pollock, conhecida como Action Painting (Pintura de Ação) ou Dripping (gotejamento/derramamento), envolve colocar grandes telas no chão e derramar, gotejar ou respingar tinta diretamente sobre elas, usando bastões, pincéis encharcados ou latas furadas, num processo gestual e quase de dança, criando composições abstratas e dinâmicas. Esta técnica, que enfatiza o processo e o inconsciente, foi central para o movimento do Expressionismo Abstrato."

Sol Lewitt

"LeWitt criava um conceito ou "sistema" para cada estrutura, que descrevia um padrão ou relação sequencial para o quadrado ou o cubo. Quando seu plano estava completo, ele o entregava — na forma de anotações escritas — a seus assistentes para que construíssem a obra.

Mark Rothko

"O trabalho de Rothko é caracterizado pela atenção rigorosa aos elementos formais, como cor, forma, equilíbrio, profundidade, composição e escala; ainda assim, recusou-se a considerar as suas pinturas apenas nesses termos."

Citar esses grandes nomes é necessário para justificar escolhas, e fui tão fundo o quanto pude. Não sei como entrar com a arquitetura, ou com o desenho do projeto, mas sei que tem a ver com isto. Uma das coisas que me vêm ao pensamento é a imagem do "corte". Enquanto pode-se entender um projeto arquitetônico pelas plantas, o corte mostra a relação dos níveis em relação ao terreno e as alturas. 

Quando eu faço as listras horizontais, tenho em mente esse chão, o terreno sobre onde se vai construir a obra arquitetônica. Pode ser que somente eu veja assim, mas esse é o motivo que justifica a horizontalidade das listras. Na vertical, como pintura talvez fique melhor, mas aí não "representaria" o chão. Existe um problema nisso, que tendo a deixar de lado, mas nessa explicação alguma lógica argumentativa fica a dever. Afinal, a abstração pressupõe uma não representação: isso não sei como explicar, pois a imagem das listras tende a ser definida como abstrata, por não conter a figuração ou representação. A meu ver, esse paradoxo é inexplicável mas para mim é real e importante. Não há um porquê.

A decisão de usar a medida em polegadas é uma arbitrariedade e ao mesmo tempo tem uma ligação com o universo das medidas. Hoje em dia, o padrão do metro prevalece na maioria dos países. O padrão da polegada está em alguns países como Estados Unidos e Inglaterra. Não se trata de uma questão de suma importância, mas tem suas repercussões no comércio internacional, que se pode resolver com tabelas de conversão e outros recursos. Para mim, foi um jeito de colocar essa questão prosaica e apontar sua existência. Não é algo que o desenho ou a arte possa interferir, mas pode  se referir no caso das listras de uma polegada sobre uma tela ou papel em tamanhos em metros.

Com esse desenho compositivo e regras claras para sua execução, o terreno da experimentação de técnicas desenho e pintura, gravura e outros meios ficou aberto. Experimentei algumas técnicas como encáustica, pintura à óleo, pintura em acrílico, esmalte sintético, colagens e algumas coisas que pude imaginar.

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